Microsoft + Yahoo!: O que aprendi até agora.

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O mercado de tecnologia é fascinante. Idéias valem bilhões da noite para o dia e, com a mesma velocidade valem nada. Eu me lembro de, na época da bolha do fim do século ter lido que uma empresa de jardinagem online fora comprada por US$400 Milhões poucos dias antes das ações começarem a cair. Só então que os investidores perceberam que não adianta estar online tem que ter coerência financeira / econômica e que fazia muito pouco sentido ter uma empresa de jardinagem online afinal, Alguém ainda teria que ir � casa do cliente para fazer o jardim, cortar as plantas, etc. Muito fácil de aunciar e muito difícil de entregar.

Nas últimas semanas acompanhamos a novela da compra do Yahoo! pela Microsoft e aprendemos algumas coisas. Pelo menos eu aprendi.

Aprendi o que significa bear hug: Abraço de urso; Desde meados dos anos 90 o pessoal de Wall Street usa essa gíria para as tomadas hostis de empresas. O procedimento é enviar uma carta para o conselho da empresa alvo oferecendo uma oferta irrecusável. Alguma coisa com um ágio que fará com que os acionistas forcem a venda da empresa. A metáfora é clara. A empresa compradora coloca o conselho em uma situação difícil. Mas há vários tipos de bear hug.

  • Teddy bear hug: Um abraço de urso de pelúcia. A gíria é usada quando a empresa compradora envia a carta fatídica e fica na dela. Não permite que os acionistas e a imprensa em geral saibam da proposta.
  • Grizzly bear hug: Um abraço de urso grizzly. O grizzly é o urso pardo americano, animal que tem graves problemas de relacionamento social. Espicialmente quando está com fome. O grizzly bear hug acontece quando a empresa compradora vai a público e notifica a imprensa e conseqüentemente seus acionistas de que a oferta foi efetivada.

Você, em algum momento acreditou que o Sr. Ballmer fosse o tipo de pessoa que dá abraços de urso de pelúcia?

Aprendi o que é Proxy Fight: Outra gíria de Wall Street. Usada quando a empresa compradora resolver ir para o mercado e tentar forçar os acionistas a tomarem uma decisão. Literalmente significa briga por procurador. A empresa compradora contrata uma empresa especializada para verificar o humor dos acionistas e sua tendência a vender ou não, além de colher informações. Muitos almoços, tapinhas nas costas e um cara abanando um maço de notas de dólar a uns dez centímetros do nariz dos acionistas. Sabe como é cheiro de tinta de impressão de papel moeda costuma ser inebriante.

Você em algum momento acreditou que o Sr. Ballmer fosse o tipo de pessoa que faria isso?

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Aprendi que algumas pessoas, mesmo ganhando 200 milhões de dólares extras preferem ficar esperneando desesperadamente que aceitar a oferta. Quero acreditar que com certeza de que no futuro ganharão mais. O Sr. Yang do Yahoo! é o caso típico. Se aceitasse a oferta da Microsoft já teria embolsado alguma coisa perto 200 milhões além do valor das suas ações. Em vez disso ele preferiu partir para a luta e tentar manter o moral da tropa alto. Convenientemente esquecendo que dias antes circularam pela internet notícias que a mesma tropa seria dizimada por centenas de demissões.

Negócios são negócios, a vida tem que continuar.. blá.. blá… blá.. Lá se foi o time de inovação de design do Yahoo!. Justificativa? Os custos estão crescendo mais rápido que o faturamento. Lendo isso eu me pergunto se o Yahoo! ainda é uma empresa de internet ou já é uma empresa de anúncios online. A diferença é grande.

Aprendi o que é poison pill: Literalmente pílula de veneno. Uma estratégia onde o conselho tenta tornar as ações da empresa menos atrativa para os compradores e mais atrativas para os acionistas atuais. Não é sem razão que tem esse nome, se falhar o conselho está morto.

Confesso. Algumas dessas coisas eu já sabia. E você?

A novela continua

Os acionistas estão divididos. O Yahoo! está calado. A Microsoft, via Sr. Gates já avisou que não aumenta a oferta. O Yahoo! está calado.

A Microsoft já avisou que vai comprar tantas empresas quantas sejam necessárias para fazer frente ao Google. Traduzindo: Se vocês não venderem vão ficar em terceiro, talvez em quarto… Quem sabe acabar. O Yahoo! está calado.

Os acionistas do Yahoo! estão claramente divididos, o tempo está correndo. As ações judiciais dos acionistas contra o conselho já começaram há algum tempo. Essa semana mais um fundo de pensão, acionista, entrou com processo contra o conselho. Se isso não for suficiente para acordar o conselho, não sei o que será necessário.

O Sr. Gates sabe. Só para deixar isso claro essa semana ele deixou escapar indícios de que a luta via procurador já começou.

Do outro lado, a Microsoft tenta convencer seus acionistas e colaboradores da validade dessa compra. O Sr. Kevin Johnson (president of Platforms and Services Division) enviou um e-mail as suas próprias tropas, justificando a compra devido ao provável crescimento do mercado de anúncios na internet e deixando claro que a integração não será simples nem indolor mas que será feita com critério.

O e-mail é, sem a menor dúvida, mais para os acionistas que para os empregados. Os primeiros verão com bons olhos o tom conservador e a visão mercadológica do texto. Os segundos vão ficar muito preocupados com esse mesmo tom e visão mercadológica. Expressões como: “recompensas significantes” quando falamos de possíveis demissões não são a melhor forma de tranqüilizar os empregados.


photo credit: CalEvans

Contudo o mais interessante do e-mail é a parte que fala das tecnologias das empresas envolvidas: “Os serviços que temos adquirido ao longo dos anos são baseados tanto em Windows quanto em código aberto. Apesar disso o Windows é a nossa plataforma estratégica e em alguns casos as equipes migraram seus produtos para o Windows, por diversas razões. Em outros casos nós priorizamos a continuidade e usamos mecanismos de inter-operabilidade para alcançar uma integração de sistemas efetiva… ”

Traduzindo: O Yahoo! é um usuário contumaz de tecnologias abertas. A Microsoft não! Vamos fazer todo o possível para que nossa tecnologia prevaleça se não for possível vamos engolir o que der. Preocupante para os usuários de soluções de código aberto. Mais preocupante ainda para milhares de pequenas empresas que usam soluções, ou serviços, do Yahoo!. Mas isso não é problema para a Microsoft, desde que o tráfego e os anunciantes não caiam.

Breve! Próximos capítulos nesse mesmo batcanal.

6 thoughts on “Microsoft + Yahoo!: O que aprendi até agora.

  1. Marcus Sá

    Cara, gostei muito do texto, eu estava acompanhando meio de longe essa história toda, e quando me deparava com esses termos não parava pra descobrir que era, mas agora, problema resolvido! Abraço!

  2. Franco Dariz

    Olá Frank!
    Excelente o texto, bastante “didático”. A pergunta que fica para os usuários comuns dos serviços Yahoo! é o que ficará de bom? E outra coisa, por que a MS não cria algo melhor que o Yahoo, já que dispõe de tanto dinheiro?

  3. Artur

    Excelente texto falou sobre aquisições de modo que nunca tinha visto em sites nacionais .È bom mostrar como realmente acontece uma compra ou venda de uma empresa , não é uma simples decisão pois envolve muitos interesses de mais pessoas ainda.Eu mesmo citei um grande abraço de urso que a Eletronic Arts realizou , foi a mídia sexta feira e soltou que estava oferecendo 50 % de ágio a sua concorrente Take-Too , imagina os acionistas a pressão que estão realizando para vende-la. POr exemplo alguem que tenha $ 50 mil em ações ganharia o dobro sem fazer nada , apenas em se ” desfazer ” das suas ações .Sem dúvida é uma nova economia.

  4. Oi Franco, obrigado pelas duas excelentes sugestões. Vou escrever sobre isso essa semana. Em minha humilde opinião, a Microsoft não quer o Yahoo! ela quer só os usuários dos diversos serviços do Yahoo!, para cortar caminho e entrar logo na dança dos anúncios. E sim,eu também acho que eles poderiam fazer melhor e mais barato. Mas não seria tão rápido.

  5. Oi Artur, obrigado. É uma nova economia e só estamos começando, já paassamos a nossa primeira grande recessão (a bolha do milênio) e acho que passaremos por outra em breve. Muito em breve.

    Sendo uma econômia baseada em conhecimento, sobreviverão os que conhecerem o mercado melhor.

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