Laptop de US$100 pode sair por US$475,00

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A Folha Online – Informática esta reportanto o que está acontecendo no pregão dos 150 mil laptops que o governos pretende comprar. Se esse preço se confirmar, vamos investir aproximadamente R$128.250.000,00 só para adquirir essas máquinas.

Eu tenho evitado falar sobre esse projeto por que discordo da maioria dos meus pares e por que estava torcendo que no fim das contas, esse treco fosse esquecido e deixado de lado.

O Brasil não precisa nem pode embarcar nessa canoa furada. Em um país onde falta giz, quadro negro e professor, laptop é dispensável. Simples assim.

Não fosse isso o Brasil deve ter, sei lá, uns 15 milhões de estudantes no ensino fundamental. É isso? Não sei com certeza, mas me soa razoável. Comprar para 150 mil viola o artigo 5 parágrafo primeiro da nossa constituição. Eu sei. Já violamos tanto esse artigo que nem nos damos conta disso. Com certeza vai aparecer algum jurista com um argumento complicado dizendo que privilegiar uns não é prejudicar outros. Ou alguma outra besteira parecida. Mas o conceito é tão simples: Homens e Mulheres são iguais em direitos e obrigações nos termos dessa constituição.

Tecnicamente falando, o projeto OLPC tem falhas graves. Uma delas, já tão divulgada é a idéia que será tão simples que qualquer criança vai poder consertar. Não é verdade e isso tem sido contestado frequentemente. O que vai acontecer é que em um ou dois anos, todos estarão sucateados e esquecidos.

Economicamente é um absurdo completo. Mesmo que custasse US$100,00 já seria demasiado caro para a utilização que se propõe. Uma das primeiras coisas que se aprende quando fazemos um projeto de hardware de larga escala é que os custos caem na mesma escala. É por isso que se pode comprar celulares a um preço irrisório se pensarmos na tecnologia que está lá dentro. Assim, se o projeto inicial fosse para vender 1 milhão de laptops para os países em desenvolvimento, US$100,00 seria razoável. Mas como se pensava em vender 20 ou 30 vezes mais que isso, o preço de US$100 é um achaque, se considerarmos que é uma iniciativa sem fins lucrativos e que já temos laptos comerciais a preço final em loja de US$ 475,00 rodando Ubuntu. Tenho certeza que uma meia dúzia de engenheiros de países em desenvolvimento fariam melhor. Nem precisa tanto:

OLPC ClassMate PC Asus Eee Everex Cloudbook
Tela 7,5" (1200×900) 7" (800×480) 7" (800×480) 7" (800×480)
Procesador AMD Geode LX-700 (433MHz) Intel Celeron M (900MHz) Intel Celeron M (900MHz) VIA C7 (1,2GHz)
Memória 1GB (NAND) 2GB (NAND) 2GB (NAND) 30GB (HDD)
RAM 256MB 256MB 256MB 512MB
Webcam VGA (640×480) Não 0,3MP (640×480) 1,3MP
WiFi Marvell 8388 802.11b/g/s Realtek WLAN 802.11b/g 802.11b/g Não especificado
Sistema Operacional Fedora (Linux) Mandriva (Linux), Metasys Classmate 2.0 o Windows XP Xandros (Linux) gOS (Linux)
Expansão / Multimídia cartões SD, 3 portas USB Ethernet, entradas de audio 7 portas USB,cartões SD, Ethernet, audio, modem Cartões de memória
Bateria Não especificado (carregador manual) 4 horas 2,45 horas Não especificado
Peso 1.58 kg Não especificado 920 gramas Não especificado
Preço US$188 US$199 US$299 US$400

Pedagogicamente falando deixa muito a desejar. A interface é linda, versátil, simples, produtiva e não tem nada a ver com os os computadores que se usa no mundo real.

Eu tenho um filho em idade escolar, começa o primeiro ano agora. Eu prefiro que ele use o Gnome, Kde, Fluxbox ou Windows a usar o Sugar. Aliás, enquanto escrevo ele está aqui do meu lado navegando na sua própria máquina, usando o Gnome/firefox.
Somos parte dos 20% privilegiados nesse país, o que não justifica que os 80% não privilegiados seja inserido em mais um gueto. Já bastam as favelas.

Se o objetivo era levar o mundo da tecnologia para as crianças, seria melhor que fosse algo que eles possam usar do lado de fora da escola.

Se o objetivo era fornecer uma ferramenta pedagógica para melhorar o aprendizado. Já temos uma solução mais barata e muito eficiente, que teve sucesso em várias versões. Chama-se giz, quadro negro e professor. Admito que a versão atual do aplicativo precise de upgrades, mas é sem dúvida muito melhor que o OLPC. E esse mesmo montante utilizado para fazer o upgrade irá beneficiar muito mais crianças. Lembre que um professor bem pago e bem treinado forma pelo menos 20 crianças todos os anos.

A educação nacional carece de uma discussão ampla, fora do meios pedagógicos, precisa incluir toda a sociedade e precisa mudar. Hoje. O OLPC não vai fazer a menor diferença para as nossas crianças ou para o nosso país e não acredito que vá fazer a menor diferenças para os 150.000 privilegiados que vão recebe-lo. Se você ainda não acredita nisso teste. Pegue algumas crianças e peça para que leiam alguma coisa, ou que resolvam algum problema simples. Ou ainda, pergunte quem foi José Bonifácio de Andrada e Silva. Aposto que se perguntar isso no Rio de Janeiro vai ouvir: O Boni, claro!

Oh! Do Governo! Sai dessa, disfarça, pede o chapéu e vai para a escola. Se querem levar tecnologia para nossas escolas, criem um projeto de reciclagem dos computadores do serviço público para utilização nas escolas. Tenho certeza que os milhares de máquinas que trocamos todos os anos seriam muito melhor utilizadas em configurações de Linux Terminal Server e que atenderiam muito mais crianças.