GPLv3 pode determinar o Fim do Linux

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A GPL sempre foi uma licença de software restritiva. Isso por si só não é um problema e pode até mesmo ser uma virtude, dependendo apenas de quem olha ou escreve. No entanto é inegável que a GPL é completa e absolutamente coerente com a filosofia da FSF. Foram Richard Stallman e a FSF que criaram o conceito de software livre e, também com todo direito, defendem esse conceito com unhas e dentes, isso é inegável e indiscutível.

Esse conceito criado é de longe o mais popular conceito para descrever softwares de código aberto e tem uma vantagem de marketing inegável. As palavras software e livre são difíceis de substituir e acabaram se integrando ao imaginário popular. Lá em terras Yakees, o problema é grande. Free Software significa tanto software livre quanto software grátis. Aqui em terras tupiniquis o problema é outro. Nós ainda não temos um termo, com grande penetração de mídia, para designar software de código aberto que permita cópias, modificação, distribuição etc sem usar o termo Software Livre. Ou seja, sem fazer uma referência direta a GPL e a FSF. Por isso encontramos vez ou outra alguém desenvolvendo software sob uma licença incompatível com a GPL e chamando de software livre.

E por que a GPL é importante? Pergunta a amável leitora.

Primeiro por que ela é a licença de software mais adotada para desenvolvimento de software de código aberto. Segundo por que é a licença adotada por todas as distros GNU/Linux. Aliás o nome é esse graças ao fato de uma parte muito grande de todos os aplicativos necessários para você usar o computador em um sistema GNU/Linux como o Ubuntu foram desenvolvidos pela FSF e licenciados sob a GPL, a parte GNU, e o próprio Kernel a parte Linux também é licenciado sob a GPL.

Há algum tempo a GPL está passando por um processo de revisão e adaptação aos novos tempos. Recentemente a FSF liberou o, assim chamado, último rascunho para análise e comentários. Nessa semana tivemos mais uma empresa de distro Linux assinando um contrato de proteção sobre possíveis violações de patentes e ontem. Kevin Carmony, Presidente e CEO da Linspire publicou um artigo ressaltando os problemas que ele vê na adoção da GPLv3.

Como é de se esperar o artigo do Sr. Carmony provocou uma enxurrada de comentários em centenas de blogs, sites de notícias, listas de discussão por toda a Internet em diversos idiomas. Alguns fazendo referências diretas e pouco educadas a determinados galhos da árvore genealógica do Sr. Carmony.

No intuito de aumentar a liberdade, a GPLv3 na verdade limita as escolhas.

As preocupações do Sr. Carmony estão focadas em um ponto nevralgico da GPLv3, a forma como software contendo algoritmos ou processo patenteados são tratados. Segundo o Sr. Carmony a GPLv3 impedirá o uso de softwares como o Adobe Acrobat Reader, a exibição de DVD’s contendo algum sistema de DRM ou mesmo o simples uso de um iPod conectado ao seu computador se este computador estiver rodando um sistema operacional licenciado sob a GPLv3. Acredito que nessa mesma linha estarão também os drivers para as placas de vídeo.


Terminando o artigo o Sr. Carmony ressalta que se a GPLv3 for aprovada como está a Linspire não será capaz de apoiar essa licença ou continuar a investir milhões de dólares em projetos de código aberto para limitar escolhas em lugar de expandir escolhas.

De fato, a GPLv3 é perfeitamente coerente com toda a filosofia pregada pela FSF ao longo dos últimos anos. Eu mesmo já fiz uma consulta sobre um problema de conflito de licenças em um dos projetos onde trabalhei e tudo que consegui foi um excelente conselho para reescrever todo o código que não era compatível com a GPL em uma licença compatível com a GPL.

Isso era perfeitamente correto e coerente mas, infelizmente, totalmente impraticável. Aliás a consulta foi feita para saber se existia uma forma de compatibilizar sem a necessidade de reescrever centenas de milhares de linhas de código aberto. Na época eu optei por reescrever o que estava em GPL e desde então tudo que desenvolvo em código aberto, desenvolvo sob uma licença BSD.

E sigo uma regra simples em todos os programas que uso: Sempre que possível use software licenciado sob BSD! Atualmente estou testando algumas distros baseadas em BSD talvez migre do Ubuntu para uma delas. O que assusta o Sr. Carmony é que ele não poderá fazer isso com a mesma facilidade que eu sem correr o risco de quebrar sua empresa.

Veja pelo lado dele: Sua companhia a Linspire vende serviços sobre uma distro baseada em GNU/Linux para usuários desktop. Quantos dos seus clientes vão querer continuar usando seu produto se eles não puderem, por exemplo, usar uma placa com aceleração gráfica? Ou ver filmes? Ou usar um teclado especial?

Essa restrição, como ele entende, impede a continuidade do seu negócio como está hoje e vai provocar a morte do Linux pelo menos do ponto de vista comercial. Tirando o produto do mercado e levando-o de volta ao nicho dos desenvolvedores de tempo livre.

Se assim for o Sr. Carmony só terá uma única solução possível, a mesma que eu adotei. Migrar o Linspire para sistemas com licenças do tipo BSD. E Isso vai acabar acontecendo com diversas empresas que suportam o GNU/Linux. A outra opção, reescrever todos os drivers e aplicativos que o usuário de desktops possa querer usar em GPLv3 é simplesmente impossível para uma empresa só, não importando o tamanho dessa empresa. Aguardar que isso aconteça também não é uma opção, pelo menos não para quem depende de recursos oriundos da venda de serviços de TI para sobreviver.

Ampliando um pouco nosso foco podemos ver uma outra solução: Não adotar a GPLv3 e continuar usando todos os softwares e sistemas que estão licenciados sob a versão atual criando algumas centenas de milhares de forks de projetos de software. Essa solução assusta até mesmo os desenvolvedores mais seguros. Minha opinião pessoal é que se essa for a solução os defensores do software proprietário ganham mais uns 20 anos de mercado sem ter que se preocupar com o desktop e ainda vão recuperar uma fatia significativa do mercado de servidores. Empresas não gostam de caos. O caos não é bom para os negócios. Caos é caro.

Os sistemas GNU/Linux são a única ameaça real a hegemonia da Microsoft no mercado de sistemas operacionais para desktops. Qualquer um que acompanhe o mercado de TI vai concordar com essa afirmação. Contudo enquanto leio sobre os movimentos recentes de empresas como a Novell e a Xandros os artigos como o do Sr. Carmony, as diversas respostas e artigos contra e a favor. Fico pensando que talvez tenha chegado a hora de parar de ser coerente e começar a ser inteligente.

Parafraseando uma personalidade nacional… O fato concreto é que muitas pessoas de altíssimo nível estão engajadas na discussão dos rascunhos da GPLv3 e nem o próprio Linus ainda não tem uma posição definida sobre a adoção ou não da GPLv3. Se antes ele era completamente contra, hoje já considera a possibilidade de adoção.

 

O perigo existe, se ilude quem não consegue enxergar essa possiblidade. Mas é só uma possiblidade, nada diferente de sair para dar uma volta de carro, ali exite também. O problema não é só o que a GPLv3 pode causar é o que já causou. Como disse empresas não gostam de caos.

2 thoughts on “GPLv3 pode determinar o Fim do Linux

  1. Thiago Silva

    “Fico pensando que talvez tenha chegado a hora de parar de ser coerente e começar a ser inteligente.”

    Mas isso me faz pensar se existe inteligência na falta de coerência.

    No mais, foi uma boa leitura.

    []’s
    Thiago

  2. Frank Coelho de Alcantara

    É verdade essa frase ficou um pouco, como direi… incoerente.:) vou melhorar.
    Obrigado.

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