Dia Internacional das Mulheres, uma lenda que você tem que contar.

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Um século interessante. O comércio internacional em franca expansão. A economia vivendo uma revolução com os novos meios produtivos. A revolução tecnológica mudando os salários as expectativas de vida e principalmente a forma como a raça humana se comunica.

Estou falando do século XIX. precisamente da segunda metade do século XIX. Na Inglaterra a Rainha Victoria reinava com firmeza, rigidez e moralismo exacerbado sem deixar de prestigiar as artes e ciências. Os Eua expandiam sua influência mundial baseados na sua capacidade de vender e produzir. No Brasil Dom Pedro II estimulava a pesquisa científica, música, artes e reinava com um olho no futuro e com o outro fechado.

Foi o século da revolução industrial, do uso do vapor e da produção em massa.

1857, um ano que não aconteceu.

1857 é um ano especial. Muito especial. Segundo a lenda, foi nesse ano, mais precisamente no dia 8 de março de 129 mulheres foram queimadas vivas em uma tecelagem por terem reclamado por melhores salários. Aparentemente nada disso aconteceu.

Em 1984 Renée Coté, cansada de ouvir histórias a respeito do dia internacional da mulher resolveu publicar um livro com uma pesquisa séria sobre o assunto. Pesquisou os jornais da época, inclusive os jornais socialistas e não encontrou uma única referência sequer as mulheres mortas em New York, ou as mulheres enfrentando a polícia nas ruas ou qualquer evento semelhante que tenha ocorrido nesse ano ou nos anos seguintes.

Buscando a verdade

Eu tinha essa informação arquivada em algum lugar do sub consciente e resolvi verificar. Primeiro a Wikipedia a história da greve heróica é citada como lenda urbana. Nenhuma referência as mortes. Depois a Biblioteca do Congresso Americano: Nenhuma referência a greve, mortes ou o que seja.

Uma busca por lenda urbana e mulheres e pimba! Achei um texto da Rede Brasil com detalhes. Eu precisava o nome da moça. Ou por algum momento você achou que eu sabia o nome Renée Coté de cor? Achou? Puxa obrigado, não mereço tanto!

Primeiro era preciso saber se a Sr. Coté existiu e se publicou o referido trabalho. Existiu e publicou. Pesquisando encontrei um trabalho detalhado de Vito Giannotti com toda a história do Dia Internacional da Mulher.

Nada de marcha heróica ou assassinato em massa. O Dia Internacional da Mulher surgiu para comemorar a luta das mulheres socialistas por melhores condições de trabalho. Surgiu e se espalhou como um evento socialista.

Mulheres e mulheres

Tendo surgido da luta das mulheres socialistas do começo do século XX o Dia Internacional das Mulheres representa a luta da mulher, feminista ou não, socialista ou não para se liberar em uma sociedade hipócrita, machista e autoritária.

Nessa última semana destaquei várias histórias de mulheres que estão tendo ou tiveram muito sucesso no mundo da tecnologia. Não como uma forma de homenagem mas para mostrar as meninas e mulheres que ainda sofrem o preconceito e o machismo dos meus pares que é possível.

Normalmente sou contra esse tipo de discriminação às avessas. Vivo em uma classe social, econômica e cultural onde o preconceito e a discriminação pelo sexo são invisíveis ou inexistentes. Contudo, minha esposa dá aulas em comunidades pobres de Curitiba e muitas das suas alunas vivem em um mundo não muito diferente do mundo em 1857.

Enquanto esse tipo de coisa existir precisamos de um Dia Internacional das Mulheres. Mesmo que seja uma lenda sobre mulheres queimadas vivas.

Série em Homenagem as mulheres:
Primeira parte: Ada Lovelace. Tudo começou com ela
Segunda parte: As mulheres que programavam o Eniac
Terceira parte: A mulher mais poderosa do mundo da tecnologia
Quarta parte: Sulamita Garcia: Uma mulher brasileira na Intel
Quinta parte: Tatiana: Vendo em 3d o que todo mundo vê em 2d