As munhequeiras

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Há uma fase na vida em que tudo que queremos é não ter os pais por perto. Fica ali, um pouco depois da infância e um pouco antes da maturidade. Uns 10 anos de torturas e mudanças, escolhas e decisões onde achamos que temos a solução para todos os problemas do mundo, temos todas as respostas e estamos prontos para vencer todas as batalhas e, quando algo dá errado, sempre podemos chamar pela mãe.  Comigo não foi diferente.

Uma tarde de sol quente e céu azul claro, quando estava me preparando para disputar a faixa marrom de jiu-jitsu em uma época em que lutadores de jiu-jitsu não tinham pit-bulls nem orelhas deformadas, um grupo de amigos resolveu passar em casa minha casa para irmos juntos à academia. Uma caminhada de uns 20 minutos de um lado para outro da ferrovia em Ricardo de Albuquerque. Nada que chamasse a atenção no subúrbio do Rio de Janeiro lá pelo final dos anos 70. Nesse tempo além de jiu-jitsu eu fazia musculação e ajudava na academia como professor auxiliar nas aulas.

Minha mãe, mulher simples, de pouco estudo e de muita sabedoria e compaixão já estava entrando no ocaso de sua vida. Os anos de vida difícil cobravam seu preço debilitando a sua saúde e fazendo-a aparentar mais idade do que realmente tinha. Mesmo assim estava sempre disposta e de bom humor e pronta para cozinhar para as visitas.

Talvez tenham sido os anos de privação na sua infância, ou talvez fosse só uma forma de demonstrar atenção com os visitantes, nunca soube ao certo. O que sempre soube é que por um motivo ou por outro, ninguém visitava a minha casa sem almoçar, jantar ou fazer um lanche

Aquela tarde não foi diferente. Ao ver a rapaziada na porta, chamou todos e preparou um lanchinho. Éramos uns três ou quatro. Todos rapazes, todos na mesma faixa etária. Alguns companheiros de faixa, outros aprendizes.

Comemos, brincamos e ela, experiente, nos deixou à vontade para conversar e discutir o futuro do mundo enquanto comíamos.

Estávamos na faixa dos quinze anos, os assuntos na mesa rodavam em torno das meninas da escola, vizinhas, artistas de cinema, televisão, a moça da padaria, a cobradora do ônibus ou qualquer outro ser do sexo oposto que tivera a desventura de cortar o caminho de algum de nós. Coisas que não se fala na presença da mãe de jeito nenhum.

Findo o lanche e com todos devidamente alimentados, peguei o kimono, mochila, acessórios e nos colocamos no camínho. Ainda brincando e implicando uns com os outros.

Não chegamos nem a cruzar o portão.  Assim que rodei a chave no trinco ouvimos um grito agoniado saíndo da casa:  – Frank!!!

Estancamos surpresos, reconhecemos imediatamente a voz de minha mãe.

Nossa casa não era muito grande nem muito rica entre a copa e o portão iam uns bons 20 m, distância que provocou alguns segundos de suspense. Nos olhávamos em silêncio. Curiosos.

Não me lembro o que passou pela minha cabeça nesses segundos mas tenho o resto da cena vívido.

Sem aviso prévio, minha mãe chega ao corredor do portão. Cabelos grisalhos e curtos com um olhar preocupado no rosto em brasa. Trazia nas mão as munhequeiras que eu usava para treinar e disparou.

– Frank, você esqueceu as punheteiras.

A rapaziada explodiu em gargalhadas.

Minha mãe não sabia se ria, se ficava envergonhada ou se me entregavas as punh… digo munhequeiras. Sentou-se na escada e gargalhou como poucas vezes lembro-me de ter visto.

E eu? Bem, eu tive que aturar a encarnação durante todo aquele dia, aquela semana, mês…

Mãe! Como eu sinto a sua falta!