Incerteza na vida doméstica

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R andall Munroe do XKCD,  está as voltas com um problema de saúde na família. Enquanto ele não volta alguns amigos estão postando em seu nome hoje Bill Amend do Foxtrot meteu a colher na família Heisenberg. Simplesmente fantástico.

Engenheiro, brasileiro, 46 anos. Ontem eu fui atropelado.

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O dia correu como sempre corre. Moroso, longo. Estranhamente, ontem, o telefone esteve mudo a maior parte do tempo. Talvez tenha sido o frio que se abateu sobre o Brasil. Ninguém ligou. Poucos e-mails, poucos problemas. Pude trabalhar tranqüilo e  colocar alguns assuntos em dia, planejar novas funcionalidades.

Saí cedo, uma ou duas horas antes. Na verdade o horário certo, mas sempre fico até mais tarde então saí cedo. Coloquei os fones do celular no ouvido e fui ouvindo Outliers (ainda não leu? Deveria ler!). Quarenta e cinco minutos de ônibus; chova ou faça sol, com engarrafamento ou não, separam o trabalho da minha casa. Cheguei ao meu tubo, me levantei e saí do ônibus, Sereno em espírito e no clima. Guarda chuva aberto, passo seguro.

Atravessei o primeiro quarteirão, apertei o botão do semáforo, parei, esperei o sinal verde, na faixa e fui. Fui atropelado.

Uma destas pick-ups grandes com a roda quase do meu tamanho. Destas que se usam hoje em dia para aumentar as chances de extinção da raça humana e como compensação fálica. Dirigida por um menino nos seus vinte e poucos anos. Furou o sinal e me atropelou.

Além da dignidade, orgulho e fé na brasilidade não quebrei nada. Estou com uma imensa mancha rocha na perna direita e um pouco de dor.  Mais na consciência que na perna.

Eu conheço o motorista. Você também. Já vi o rosto dele uma ou duas vezes  quando ele parou em fila dupla para deixar o filho na escola. Outra vez quando ele levou o cachorro para esvaziar os intestinos na frente da casa de outro vizinho. Eu vi quando ele furou a fila no mercado. Vi também quando ele pichou o muro. Eu estava lá quando ele subornou um guarda para não receber uma multa e quando ele não devolveu o troco extra na padaria. Eu o vi parando em cima da faixa, ultrapassando em faixa continua. Eu vi quando ele instalou o windows pirata e quando ele comprou um cd na beira da calçada. Eu o conheço. Você também, ele está bem aí… Do seu lado.

E ontem ele me atropelou. Se eu fosse mais novo, mais magro, mais velho ou andasse mais rápido estaria morto.

Tive sorte de ainda ter alguma coisa atlética no corpo. As pernas forçadas que são a carregar todos os músculos que migraram dos bíceps e peitoras para o abdômen ainda são fortes aguentaram o impacto da roda, quase do meu tamanho, e não quebram. Tive sorte, os anos de jiu-jítsu fizeram com que, instintivamente eu batesse no chão com a mão direita amortecendo a queda. Tive sorte de sustentar a cabeça e não deixá-la bater no chão. Instinto, puro instinto salvou minha vida.

Ontem fiquei furioso com o motorista. Antes de ele fugir me lembro de ter feito algumas citações pouco honrosas sobre o passado de sua mãe. Vergonha. Pura vergonha.  Hoje estou furioso comigo.  Esqueci a primeira regra que meu pai me ensinou quando me deixou ir para escola só: O que para carro é freio!

O sinal amarelo só serve para avisar ao educado condutor do veículo que ele tem que parar o carro e o vermelho para dizer que ele não pode passar de jeito nenhum. Hoje, aqui em Curitiba, no Rio de Janeiro, São Paulo e até que me provem o contrário resto do Brasil, o sinal amarelo significa: vai que dá! Não deu. A minha vida poderia ter acabado naquele segundo, a dele também.

Ontem fiquei furioso com o motorista. Hoje estou furioso com você. Sim você. A culpa é sua, e minha. Ontem eu fui atropelado e você estava no volante junto comigo e o motorista.

Você que leva o cachorro para passear e não recolhe seus resíduos. Você que escuta música alta depois das vinte e duas horas. Você que fura fila, para em fila dupla e ultrapassa na faixa contínua. Você que usa software pirata, copia vídeos e músicas da internet e não respeita direito autoral. Você que não devolve o troco extra nem a carteira achada na rua. Você que picha muro, cospe no ônibus e faz xixi na árvore. Você que usa a área comum do condomínio para guardar sua bicicleta. Você que como eu, não respeita as pequenas regras da sociedade estava dirigindo aquele carro. Ontem, quando eu fui atropelado

Imaginamos que podemos agir racionalmente. Ah! Se isso fosse verdade o mundo seria um verdadeiro paraíso. Infelizmente não é. Não agimos racionalmente na maior parte do tempo. A racionalidade de que tanto nos orgulhamos não rege as nossas atitudes mais corriqueiras. A única forma de o adolescente usar camisinha é se ela estiver no bolso quando ele ficar excitado. A única forma de parar no sinal amarelo é respeitar a lei. A única forma de respeitar as pequenas leis do dia a dia é se todas forem respeitadas.

O cara que leva o cachorro na porta do vizinho  também fura o sinal e guarda o troco extra.  Esse sujeito, média nacional, é resultado de uma sociedade cujas diretrizes educacionais estão simplesmente erradas. Pense bem. Quantas vezes você disse para seu filho que os policiais são corruptos? Ou para seus amigos. Ou para si mesmo. Apologia da corrupção não corrige a corrupção. Punição sim. Existem graduações em corrupção? Quem é mais corrupto o cara que fura o sinal amarelo ou o cara que leva vantagem em um contrato com o governo.

Ontem eu fui atropelado e a culpa é nossa. Nós estamos montando essa sociedade baseada em conceitos de falsa moralidade e nenhuma cidadania. Ontem eu fui atropelado por uma sociedade que valoriza o indivíduo que leva vantagem.

Ontem eu fui atropelado. O pouco de fé que eu tenho na brasilidade ficou despedaçado mas, vou continuar ensinando ao meu filho a devolver o troco, não parar em fila dupla, não usar software pirata e acreditar nos policiais. Vou continuar escrevendo sobre isso. Vou continuar mostrando aos meus alunos onde eles podem melhorar e por que eles têm que melhorar. E por que eu não posso aceitar o trabalho no dia seguinte. Seria bom se você fizesse o mesmo. Não precisa muito.

Na hora de deixar o filho na escola não pare em fila dupla e explique porquê. Simples assim. Coisas simples assim vão mudar o Brasil e o mundo. Respeite as regras, obedeça aos sinas. Siga as filas. Aja como se existisse uma sociedade e ensine isso.

Ontem eu fui atropelado, mas ainda sou eu.

Este artigo foi originalmente publicado no Cidadão de Quinta no dia 5 de agosto de 2010, como vou tirar o cidadão do ar, já que nem de quinta ele é mais. Resolvi postar aqui só para não perder o texto.

Aconteceu na Nova Zelândia: Terremoto

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Desde os tempos do Jaca Paladium, talvez mesmo antes, que tenho verdadeira paixão pela Nova Zelândia. Já ouviu falar? Lembra?

Nova Zelândia é um destes países cuja qualidade de vida é tão boa que não aparece nem nos jornais. Tenho lá alguns bons amigos e primos por parte da internet.  Quase todos em Aukland a maior cidade do país, uma das coisas que fazemos frequentemente é trocar links. Coisas curiosas do Brasil vão, coisas curiosas da Nova Zelândia vêm. Esta semana me enviaram o link da foto a seguir:

Observe o estrago causado pelo terremoto na linha férrea e compare com o solo ao redor. Fantástico, não é?

Só na Nova Zelândia. O link original está aqui.